
Capítulo 1 · Palestra Técnica Principal
Segurança contra incêndio: a garagem deve ser considerada como um sistema
Denis Lucas Melchiori · Capitão PM e Chefe da Seção de Normas SCI do CBPMESP
Mini bio oficial
Capitão PM e Engenheiro Civil, pós-graduado em Segurança do Trabalho e em Segurança contra Incêndio. Atualmente é Chefe da Seção de Normas e Segurança contra Incêndio do Corpo de Bombeiros da Polícia Militar do Estado de São Paulo (CBPMESP), atuando no desenvolvimento e atualização das Instruções Técnicas e do Regulamento de Segurança contra Incêndio do Estado de São Paulo.
Conteúdo editorial
A eletrificação das garagens traz novas exigências para o planejamento da segurança dos edifícios. Cada ponto de recarga se conecta a circuitos, quadros, proteções e procedimentos de operação que precisam coexistir com as demais instalações e medidas de segurança da edificação.
É nesse contexto que a apresentação do Capitão Denis Lucas Melchiori aborda os Sistemas de Alimentação de Veículos Elétricos, conhecidos pela sigla SAVE, e sua relação com as diretrizes de segurança contra incêndio do Corpo de Bombeiros de São Paulo. A questão central não é tratar o carregador como um equipamento isolado, mas compreender como sua instalação afeta a garagem e os sistemas do edifício.
O que é um SAVE?
SAVE é a sigla utilizada para designar o sistema de alimentação destinado à recarga de veículos elétricos. Na prática, a implantação de um ponto de recarga envolve mais do que o equipamento visível junto à vaga: há uma infraestrutura elétrica de alimentação, dispositivos de proteção, componentes de comando e condições de instalação que precisam ser definidos em projeto.
Por isso, a escolha do equipamento é apenas uma etapa do processo. Antes dela, é necessário verificar de onde virá a energia, como o circuito será protegido, quem responderá pela instalação e como o sistema se integrará às condições de segurança da garagem.
Por que o projeto coletivo importa?
Uma garagem coletiva pode receber hoje a solicitação de um único morador e, em pouco tempo, a de vários outros. Se cada instalação for concebida sem considerar as instalações compartilhadas, o edifício corre o risco de acumular trajetos de cabos incompatíveis, soluções difíceis de manter e demandas superiores às inicialmente previstas.
O projeto coletivo oferece uma visão da garagem completa. Ele permite avaliar a infraestrutura disponível, identificar limites e estudar como novas instalações poderão ser incorporadas ao longo do tempo. Também ajuda o condomínio a estabelecer critérios técnicos coerentes para solicitações individuais, em vez de decidir cada caso de maneira desconectada dos demais.
Esse planejamento não elimina o direito à instalação individual quando atendidas as condições legais. Sua função é dar suporte técnico ao exercício desse direito e preservar a segurança das áreas comuns.

Lei, normas e responsabilidade técnica
No Estado de São Paulo, a Lei nº 18.403, de 18 de fevereiro de 2026, assegura ao condômino o direito de instalar, às suas expensas, estação individual de recarga em sua vaga privativa, desde que respeitadas as normas técnicas e de segurança vigentes. A lei estabelece condições para a instalação, entre elas a compatibilidade com a carga elétrica da unidade, o atendimento às normas da distribuidora e da ABNT, a atuação de profissional habilitado com emissão de ART ou RRT e a comunicação formal prévia ao condomínio.
O direito previsto na lei não dispensa o exame das condições concretas do edifício. Da mesma forma, a existência de um projeto ou de uma ART individual não substitui, quando necessária, a avaliação dos impactos sobre sistemas e espaços compartilhados.
Modos de carregamento: como o veículo se conecta à energia
A classificação por modos de carregamento descreve como o veículo elétrico é conectado à fonte de energia. Ela leva em conta o tipo de tomada ou equipamento usado, a existência de dispositivos de controle e proteção no cabo ou na estação, e se a corrente fornecida ao veículo é alternada (CA, ou AC) ou contínua (CC, ou DC).
A figura a seguir, apresentada na palestra, mostra os quatro modos. Ela é uma classificação ilustrativa. Serve para entender as diferenças entre as formas de recarga, mas não indica quais modos são admitidos em uma garagem residencial.

Como ler o diagrama
Modo 1: tomada comum, sem dispositivo de controle no cabo. O cabo liga o veículo diretamente a uma tomada em corrente alternada. O diagrama mostra apenas a tomada, o cabo e o conector do veículo, sem nenhum módulo intermediário. Este é o arranjo mais simples. Por isso, a segurança da recarga depende quase totalmente das proteções da instalação elétrica que alimenta a tomada.
Modo 2: tomada comum, com dispositivo de controle e proteção no cabo. O cabo também sai de uma tomada em corrente alternada. A diferença é o módulo que aparece no meio do cabo, que representa um dispositivo de controle e proteção. Esse dispositivo acrescenta funções de supervisão da recarga. A tomada e a instalação que a alimenta continuam sendo parte essencial da segurança do conjunto.
Modo 3: estação de recarga dedicada, em corrente alternada. O veículo é conectado a uma estação ou wallbox instalada para essa finalidade, também em corrente alternada. As funções de controle e comunicação ficam na estação, e não em uma tomada comum. Nessa configuração, a recarga tem circuito e equipamento próprios. É o arranjo em que se costuma pensar quando se fala em pontos de recarga fixos em vagas de garagem.
Modo 4: carregador externo, em corrente contínua. O diagrama mostra a conversão de AC para DC dentro do equipamento. O carregador fica fora do veículo e fornece corrente contínua diretamente a ele, por um cabo ligado ao próprio carregador. O conector do veículo também é diferente dos usados nos modos anteriores. Esse tipo de solução é associado a equipamentos de maior porte.
| Modo | Origem da energia | Corrente no ponto de conexão | Controle e proteção | Característica visual no diagrama |
|---|---|---|---|---|
| 1 | Tomada | Alternada (CA) | Sem dispositivo específico no cabo | Cabo direto da tomada ao veículo |
| 2 | Tomada | Alternada (CA) | Dispositivo de controle e proteção no cabo | Módulo intermediário no cabo |
| 3 | Estação de recarga dedicada | Alternada (CA) | Na estação de recarga | Estação fixa com conector |
| 4 | Carregador externo, com conversão de CA para CC | Contínua (CC) | No carregador | Equipamento com cabo ligado a ele |
Quadro elaborado a partir da figura apresentada na palestra do Corpo de Bombeiros. Ele tem caráter ilustrativo e não indica quais modos estão autorizados.
Alarme, detecção, desligamento e sinalização

A palestra destaca a interligação do SAVE com os sistemas de alarme e detecção de incêndio. Para o leitor, a mensagem essencial é que a resposta a uma emergência precisa ser pensada junto com a infraestrutura de recarga. O responsável técnico deve verificar quais interfaces são exigidas para a situação concreta e como elas serão implantadas, identificadas e testadas.
Outro ponto apresentado é a sinalização fotoluminescente associada ao desligamento do sistema de alimentação de veículos elétricos. Sua finalidade é favorecer a identificação do comando em uma situação de emergência. A localização, a forma de acionamento e os dizeres da sinalização precisam corresponder ao projeto e aos requisitos oficialmente aplicáveis; não devem ser copiados de um slide sem essa verificação.

Fiscalização e documentação
A fiscalização do Corpo de Bombeiros pode ocorrer por vistoria visual e por amostragem, e a documentação de responsabilidade técnica faz parte desse processo. Por isso, o projeto, os registros técnicos e as informações da instalação devem estar organizados e coerentes com o que foi executado.
Para o condomínio, documentar a infraestrutura vai além da formalidade. Registros claros permitem saber quais pontos foram instalados e quem responde por eles. Também permitem planejar intervenções futuras sem comprometer as soluções já existentes.
A instalação de pontos de recarga para veículos elétricos deve considerar a ABNT NBR 17019, que estabelece requisitos para instalações elétricas de baixa tensão destinadas à alimentação desses veículos, e a ABNT NBR 5410, aplicável às instalações elétricas de baixa tensão. Em edificações, a ABNT NBR 16280 também é relevante para a gestão das reformas necessárias à implantação da infraestrutura. Conforme o modo de carregamento e os equipamentos utilizados, devem ser observadas ainda as normas aplicáveis aos componentes e sistemas de recarga.
Em síntese: segurança contra incêndio e recarga veicular não são assuntos separados. A instalação deve ser examinada como parte da garagem e do edifício, com exigências confirmadas nas fontes oficiais antes de serem transformadas em especificações de projeto.















